Entendendo a liberdade

Ditado por um amigo espiritual

Dia desses estava pensando sobre a liberdade que existe no templo religioso que eu freqüento. Explico:
A Entidade espiritual de chefia do templo, apesar de seu médium seguir uma determinada vertente da umbanda e de aplica-la na forma de funcionamento e de dinâmica de trabalhos do cujo, não inibe e nem proíbe de forma nenhuma que seus filhos de fé venham a estudar outras vertentes da umbanda.
Estava mesmo a divagar tentando entender o porquê de a Entidade chefe permitir o acontecimento deste tipo de situação no templo por que a meu ver muitas vezes a pluralidade não significa obrigatoriamente conhecimento e evolução ordenados.
Eu estava a pensar, pensar e pensar quando de repente, numa espécie de sonho acordado, eu me vi na frente de uma negra velha que estava numa cadeira de balanço a se mexer para lá e para cá. Sem pensar duas vezes ajoelhei-me à sua frente, cruzei o solo a minha frente e me atrevi a lhe dizer:
— À benção Vovó.
— Zambi que lhe dê luz e forças, mas pode ficar de pé, zifio.
— Sim senhora.
— Suncê é bastante curioso e perguntador, não é zifio?.
E bastante “ quadrado” eu respondi:
— É vovó…
— Essa nêga véia pode fazer uma pergunta pra suncê?
— Mas é claro, sim senhora!
— Zifio, onde é que está a liberdade?
— A liberdade? Sinceramente eu não sei.
— A liberdade está no dinheiro?
— Penso que não porque existem muitos ricos que encontram-se encarcerados no materialismo.
— E estará ela na pobreza, zifio?
— No meu modo de ver não porque existem muitos pobres, materialmente falando, que encontram-se presos as reclamações, insatisfações e desesperanças do seu dia-a-dia.
— E por acaso ela estaria no amor?
— Acho que não porque existem muitas pessoas com amor de mais ou de menos por alguém, mas que se encontram presos ao desamor por si próprias.
— Então zifio, onde está a liberdade?
— É como eu lhe disse vovó, sinceramente eu não sei?
— Como não zifio se suncê acabou de responder pra esta nêga?
— Eu?
— Claro, não foi suncê que acabou de dizer que o dinheiro e o amor não libertam ninguém se por dentro os zifios se sentirem presos a visões deturpadas sobre qualquer
um dos sete sentidos da criação divina que são: conhecimento, lei, justiça, fé, evolução, amor e vida?
— Eu disse isso vovó?
— Claro, suncê não acabou de dizer pra nêga que ter alguém para amar necessariamente não torna o amante livre se ele estiver preso ao desamor por si próprio?
— Sim.
— E isso não quer dizer que este amante encontra-se com a visão deturpada no que diz respeito ao divino sentido da criação divina que é o amor?
— Sim.
— Então suncê respondeu mesmo pra nêga onde é que tá a liberdade.
— Como assim?
— Ora zifio a liberdade tá dentro de suncês, na luta que ocês deve fazer a cada dia pra se libertar de seus vícios, mazelas, imperfeições e erros no que diz respeito à Lei Maior e à Justiça divina. A liberdade é questão de suncês procurar conhecer e praticar cada vez mais as verdades sobre a lei de amor e caridade. É como disse o Homem grande da cruz né zifio: “ Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
— É verdade vovó.
— Se suncê sabe que é verdade, porque estava questionando a forma como o mano que é o chefe espiritual da casa de caridade que suncê freqüenta lida com a maneira como os cavalinho, que é seus filhos de fé, busca o estudo e o conhecimento sobre a religião que suncês professam?
— Eu não estava questionando, sabe vovó, estava querendo é entender.
— E quem não entende questiona para que possa alcançar entendimento, não é?
E eu visivelmente envergonhado e boquiaberto com a sabedoria daquela Entidade amiga respondi:
— É vovó.
— Não se envergonhe nunca de querer questionar o que não entende porque todo questionamento que busca um aprendizado sobre as coisa de Zambi é notadamente válido. Só não se esqueça que o conhecimento de muitas coisas só acontece com o tempo e que o conhecimento de outras leva tanto mais de tempo que uma encarnação não é suficiente para aprender. Peça sempre ao Criador que lhe dê sabedoria para discernir uma situação de outra e humildade para aceitar o que ainda não for lhe permitido conhecer.
— Sim senhora, vou procurar fazer minhas preces cada vez mais pedindo a sabedoria e a humildade para minha vida.
— Muito bom zifio e Zambi que lhe proteja e lhe guarde. Agora zifio responde pra esta nêga véia: um copo com água possui qual líquido em seu interior?
Com todo o respeito do mundo que tenho a toda e qualquer Entidade espiritual, mas esta pergunta da vovó parecia ter a resposta tão óbvia que eu comecei a pensar se Ela estava deixando de falar coisa com coisa. Mesmo assim, e com todo o respeito eu lhe respondi:
— Água.
— E se suncê derramar esta mesma água em cima de uma mesa, qual líquido você verá derramado na mesa?
— Água.
— E se suncê retirar a água da mesa e joga-la no chão, qual líquido estará derramado no assoalho?
— Água.
— E por último zifio, e se suncê passar um pano no chão e retirar toda a água, qual líquido estará no pano?
— Água.
— A mesma água que estava dentro do copo, não é zifio?
— Isso.
— Suncê deve tá achando que por tanto falar em água, ou nêga veia é doida ou então tá morrendo de sede, não é zifio?
Meu Deus, como eu ri neste momento. Ri mesmo, ri de doer o abdômen e pensei comigo mesmo: Meu Deus, como tua criação é perfeita!!! Que conversa maravilhosa e que Entidade maravilhosa!!! E só depois deste breve, mas sincero agradecimento foi que eu olhei para a vovó e respondi.
— Olha vovó para ser sincero com a senhora eu devo dizer que pelo fato de não estar entendendo aonde a senhora quer chegar com esta história de água eu cheguei a pensar mesmo que a senhora não estava dizendo coisa com coisa.
— É zifio muitas vezes a ansiedade faz suncês pensar e até mesmo dizer coisas bastante malcriadas.
— Olha vovó, a senhora me perdoe é que eu só quis ser sincero e…..
— Êta zifio essa nega véia não tava falando de suncê não. Na verdade com toda essa história de água esta nêga quer expricar pro zifio uma coisa que pra suncê entender de fato, nêga tem que fazer mais uma pergunta: zifio, seja no copo, na mesa, no chão ou no pano, em algum momento a água deixou de ser água?
— Não.
— Então zifio, suncê pôde perceber que a essência, que é a água, não mudou; o que mudava era a forma da água porque ela sendo um líquido tinha que se amoldar aos locais em que era inserida; assim, dentro do copo a água estava na forma de copo, no pano a água estava em forma de pano e o mesmo acontecia com a água em cima da mesa e no chão, certo?
— É verdade.
— Então zifio, entenda que com as vertentes da umbanda a mesma história de essência e forma também se aplica, entende?
— Mais ou menos.
— Nega véia então tenta expricar pra suncê: zifio ao fundar na terra a religião de umbanda o mano Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas fez a melhor definição sobre a essência desta religião que poderia existir: “umbanda é a manifestação do espírito para a caridade”. A caridade zifio, foi, é e sempre será a essência desta amada religião que suncê professa; mas a forma pela qual esta essência se mostra zifio é muito variável.
Pra nóis aqui no plano espiritual zifio não interessa a forma, nóis tão é preocupado com a essência. Pra nóis não interessa a forma da umbanda: se ela é umbandaX, umbandaY ou umbandaZ; pra nóis o que interessa é se a prática e manifestação desta prática umbandista leva única e exclusivamente a caridade e ao “religare” dos filhos de fé com Zambi nosso Pai. Entendeu, zifio?
— Sim senhora.
— E o mano que é o chefe do templo religioso onde suncê freqüenta é ancestralmente um ordenador da fé; e o que importa pro mano zifio é se suncês estão encontrando a ordenação da fé de suncês através da essência da umbanda que é a prática da caridade e se isso acontece zifio, o mano tá pouco se importando se um cavalinho que tá fazendo a caridade no templo religioso estuda a umbandaX, ou se outro cavalinho faz curso da umbandaY. Pro mano e pra nóis que suncês chama de Entidades isto são só rótulos e rótulos só servem para indicar conteúdos. Agora se o rótulo de um cavalinho que faz estudadô de umbanda designar como principal conteúdo deste a essência da caridade, então pra nóis e pro mano tá muito formoso. Entende zifio?
— Sim senhora.
— Agora o que suncês que são cavalinho que faz estudadô de umbanda disso e umbanda daquilo não pode e nem deve esquecer é que o mano que chefia os trabalhos do templo umbandista que suncê freqüenta vem preparando o cavalinho dele desde a ancestralidade para que exerça a divina e árdua tarefa de ser sacerdote e para que administre o templo da exata forma com a qual ele vem sendo administrado; e se o cavalinho dele encontrou seu “religare” com o Divino Criador através do estudo e prática no templo religioso da umbandaX, então suncês demais cavalinho têm a obrigação de, minimamente dentro do templo religioso, estudarem, trabalharem e procurarem a ordenação da fé de suncês através da vivenciação e prática da forma umbandista que o sacerdote do templo que vocês freqüentam também adotou que, no caso, é a umbandaX. Entende zifio?
— Sim senhora.
— Pois então pratique e respeite isto que esta nêga pede a suncê, pra que suncês também sejam respeitados. Entende?
— Sim senhora.
— Respeite sempre o espaço religioso e a forma de trabalho do templo que você freqüenta. São os cavalinhos que têm de se adaptar a forma de ser de um templo religioso e jamais, e sob nenhuma condição, o oposto. Agradeça sempre a Zambi pela liberdade que existe no templo em que você freqüenta, entenda que esta liberdade exterior que existe para que suncês possam estudar da umbanda a forma que mais agrade suncês, nada mais é do que um jeito da entidade que chefia o templo permitir que cada um dos zifio possa alcançar a verdadeira liberdade, que é aquela que leva suncês ao conhecimento e a prática cada vez mais intensas sobre as leis de amor e caridade. Entende?
— Sim senhora.
— Use esta liberdade com sabedoria e respeitando as normas e a forma de trabalho do templo religioso que suncê freqüenta, buscando sempre a fraternidade e o companheirismo com os seus irmãos de fé sem jamais promover a divisão neste espaço sagrado. Jamais se esqueça zifio que todo estudo relacionado às essências das coisas sobre o divino, mesmo que sejam de formas diferentes, serve tão somente para a união cada vez maior dos filhos de fé e jamais para promover o separatismo. Entende?
— Sim senhora.
— Deus é amor. O amor une. A união liberta. A liberdade nos torna responsáveis pela propagação deste abençoado amor que é a caridade. Pouco importa a forma, importante mesmo é ao próximo fazer o bem. Entendeu zifio ?
E eu, com lágrimas nos olhos respondi:
— Sim senhora.
— Então saravá, zifio. Fique na força e na luz de Zambi nosso Pai.
— Saravá vovó de meu coração, vá com Deus.
Gente, não sei precisar por quanto fiquei neste “ sonho acordado” , só sei que quando dele eu despertei meus olhos estavam realmente banhados em lágrimas.
Foi a partir daí que eu me pus a pensar: cada linha de trabalho na umbanda tem o seu encanto e merece todo o nosso respeito, agora dos nossos amados preto-velhos eu sou “fã de carteirinha”. Como é que pode? Perto deles eu só sinto vontade de evoluir, evoluir, evoluir e evoluir. Quando penso que a evolução é difícil e me sento perto de um deles eu consigo transmutar este pensamento e a achar que é tão fácil, tão fácil.
Para mim Eles não são melhores que nenhuma outra linha de trabalho da umbanda, mas são os que mais despertam em meu íntimo o desejo de evolução. Só mesmo eles me fazem sentir tão cativo seus e ao mesmo tempo tão liberto, mesmo que momentaneamente, de minhas imperfeições.
Liberdade!!! Foi devido a incompreensão sobre este divino sentimento que obtive a oportunidade de temporariamente entrar em contato com um ser espiritual desta divina falange. E eu, que de alguma forma, até já me sentia livre, com os esclarecimentos, passei a entender melhor a verdadeira liberdade e, assim, a me sentir mais livre ainda !!!

Saravá a liberdade !!!!

Saravá a falange dos preto-velhos !!!!

Saravá a Pai tomé !!!!

Saravá ao Senhor Águia branca !!!

por Pedro Rangel de Sá
fonte: http://pedrorangelsa.blogspot.com/2008_01_01_archive.html

De Olhos Fechados

            Sentado ali em frente ao seu congá, o velho Pai de Santo relembra com surpreendente nitidez a sua infância e seu primeiro contato com a espiritualidade.

              Nitidamente ele se vê na tenra infância a brincar sozinho no amplo quintal da casa de seus pais. Lembra-se que alguma coisa o fez olhar para as nuvens e que diante dele uma estranha imagem se formou; um velho sentado ao redor de uma fogueira e um menino a ouvir-lhe as histórias,

              De alguma forma, o menino ao ver aquela cena, sabia que se tratava dele mesmo.

              O tempo passou e a cena jamais foi esquecida e também jamais revelada, o acompanha em sonhos e lembranças. Cresce e acaba por se tornar um médium umbandista.

              Aos poucos vai conhecendo seus guias que vão tomando seu corpo nas diversas “giras de desenvolvimento”. Primeiro o Caboclo, que lhe parece muito grande e forte; depois os demais até que ao completar 18 anos, o seu Exú também recebe permissão para incorporar.

              Já não é mais médium de gira. A bem da verdade, ocupa o cargo de Pai Pequeno de Terreiro. Percebe que não tivera uma adolescência com a da maioria dos jovens que lhe cercam na escola. Não vai a bailes,  festas …. Dedica-se com uma curiosidade e um amor cada vez maior à prática da
caridade.

              Os anos passam e ele  acaba por abrir seu próprio terreiro. Inúmeras pessoas procuram seus guias e recebem sempre um lenitivo, uma palavra de consolo,  uma esperança.

              Foram tantos os pedidos e os trabalhos realizados que já perdera a conta. Viu inúmeras pessoas que declaravam amor eterno pela Umbanda se afastarem, criticando o que ontem lhes era sagrado, porque alguns de seus pedidos, não haviam sido alcançados na plenitude desejada.

              Presenciou pessoas que vindas de outras religiões, encontravam a paz dentro do terreiro. Este, era mantido a duras penas já que nada cobrava pelos trabalhos realizados. “Daí de graça,  o que de graça recebestes”.

              Solteiro,  permanecia até hoje pois embora tivesse muitas mulheres que lhe foram caras, nenhuma delas suportou ficar a seu lado. Para ele, a vida sacerdotal se impunha a qualquer outro tipo de relacionamento.Mesmo assim, amava todas aquelas que lhe fizeram companhia em sua jornada
terrena.

              Brincava o velho Pai de Santo quando lhe perguntavam se era casado…. Respondia bem humorado que se casara muito cedo, ainda menino. A curiosidade dos interlocutores quanto ao nome de sua mulher era satisfeita com uma só palavra: Umbanda. Este era  nome de sua mulher.

              Com o passar do tempo a idade foi chegando. Muitos de seus Filhos de Fé seguiram seus destinos, vindo eles próprios, a abrir suas casas de caridade.  O peso da idade não o impede de receber suas entidades e ainda ecoa pelo velho e querido terreiro o brado de seu Caboclo; o cachimbo do
Preto Velho ainda perfuma o ambiente, a gargalhada do Exú ainda impressiona, a alegria do Erê emociona a ele e a todos… Enfim, sente-se útil ao trabalhar.

              Hoje não tem gira, o terreiro está limpo, as velas estão acessas e tudo parece normal. Resolve adentrar ao terreiro para passar o tempo. Perdera a noção da horas.

              Apura os ouvidos e sente passos ao seu redor. Percebe que  alguém puxa os pontos e o atabaque toca. Ele está de frente para o congá. O cheiro da defumação invade suas narinas…. Seus olhos se enchem de lágrimas na mesma proporção que seu coração se enche de alegria. Estranhamente não sente coragem ou vontade de olhar para traz…. apenas canta junto os pontos. Fixa as imagens do altar, fecha os olhos e ainda assim vê nitidamente o congá. Parece que percebe o movimento do terreiro aumentar e vira de costas para o congá e a cena o surpreende: Vê Caboclos, boiadeiros,pretos velhos, marujos, baianos, erês e toda uma gama de Guias. Até os Exús e Pombas Giras estão ali na porteira. Se dá conta que os vê como são – não estão incorporados, todos lhe sorriem amavelmente.

              Dentre tantos Guias percebe aqueles que incorporam nele desde criança. Tenta bater cabeça em homenagem a eles, mas é impedido. O Caboclo, seu Guia de frente se adianta e lhe abraça, brada seu grito guerreiro, sendo acompanhado pelos demais.

* O Velho Pai de Santo não agüenta e chora emocionado.

* As lágrimas lhe turvam a vista. Ele fecha seus olhos e ao abri-los, todosos Guias permanecem em seus lugares,  porém calados….

* Nota uma luz brilhante em sua direção. Iansã e Omulú se aproximam. Seu Caboclo os saúda e é correspondido.

* A luz o envolve. Já não se sente velho, na verdade, sente-se jovem como
nunca, seu corpo está leve e levita em direção à luz.

              Todos os Guias lhe fazem reverência.

* O terreiro vai ficando longe, envolto em luz….. Sorri alegre. Missão cumprida.

* No dia seguinte encontram seu corpo aos pés do congá. Parece que sorri….

A.D.