Mãe Preta fala aos fio: Larga, meu fio

preta No centro do nosso ser existe algo qui num há comparação. É muito bão, é coisa bão mesmo. Eu num sei se ocê gosta do que eu vou dizer, mas tumbém isso num importa muito, não. Eu sigo a minha alma. Ela se derrama nesse momento e eu confio nela. Ansim, minha gente, nóis vai seguindo com calma e confiança, pruque essas duas qualidades são fundamentais pra ocê atrair todas as mudanças na sua vida.
Ocê ouviu? É isso mesmo, calma e confiança.

As veis nóis quer que as coisas mudem, melhorem, aconteçam, mas se nóis tá com ansiedade quer dizer que acreditamos que aquilo talvez possa num acontecer.

Confiança significa relaxar.

Ocê faz a sua parte, sim, e dispois relaxa, pruque sabe qui ocê só faz apenas 10% do trabalho, o resto são feito pelas forças inconscientes, ou seja, dependerá das crenças qui ocê traz dentro de si.

Tem gente qui faz tanto esforço pra conseguir as coisas, trabalha qui nem um zebu mas sempre aparece mais conta pra pagar. Agora tem otros qui ganham dinheiro feito água, num fazem o menor esforço e chove cliente, chove dinheiro, isso pruque confiam plenamente qui merecem o mior e ansim o mior vem.

Ah, vem! A forças criativas da vida trabalham através de ocê, com base naquilo qui ocê acreditar. Ocê pode até se sacrificar trabalhando qui num é isso que atrai o sucesso e prosperidade.

O que atrai as coisas pra ocê é a energia qui a sua alma irradia. E ela vai irradiar energia de acordo com aquilo qui ocê acreditar.

A maioria dos fio ta irradiando medo hoje em dia. Acredita tanto na maldade do mundo qui começa a emanar só vibração ruim, vive com medo, enche a cabeça com notícia do jornal qui tão carregada di negatividade e ansim passam a atrair ladrão pro seu lado.

É, meu nego, onde é qui ocê ta botando sua cabeça, hein?
Ta entupindo ela di porcaria, coisa qui num presta?
Dispois fica cum medo do desemprego, di assalto, di bandidagem.

Mas nada acontece por acaso nesse mundo, minha gente. Nóis num ta vivendo ao léu. Essa vida é dirigida por leis muito sábias. É ansim, oh, tudo o qui acontece com ocê, foi ocê mesma quem atraiu.

Num existe culpado nem vítima. Ocê atraiu tudinho aquilo qui ocê ta vivendo. Volta pru teu centro, minha nega. Ali mora a sua alma, o reflexo di Deus, a divindade, o centro di poder desconhecido pela maioria di nóis.

- Ah, Mãe Preta, mas eu não tenho tempo para filosofar, meu filho está desempregado e eu preciso ajudá-lo.

- Eta zebu di mãe mesmo. Mãe Preta vai desempregar ocê desse emprego di mãe, ocê topa? Seu fio deve di ta percisando aprender a se virar, aprender a desenvolver certas forças qui tão adormecidas e ocê já vai estragar tudo, num é mesmo? Deixa ele se tornar independente, muié.

- Ah é, Mãe Preta. Ele está aqui. Por que a senhora não fala isso pra ele?

- Qual é o poblema, meu fio? Ocê ta sem trabalho?

- Sim, Mãe Preta, faz seis meses que não consigo emprego.

- E pruque ocê num pega um paninho e vai se oferecer pra lavar carro?

- Por que eu não tirei um curso de administração para estar lavando carro.

- Então passa fome seu administrador burro. Ocê quer emprego mas num quer trabalho, num é meu nego? Percisa perder essa PANCA, percisa perder todos esses dentes da boca e ficar igual à Mãe Preta pra deixar essa vaidade. A vida ta chamando ocê pra ser polivalente, pra deixar de ser pancudo. Nessa época, meu nego, quem escolhe muito perde as oportunidades. Sua alma quer qui ocê vá além desse papel, desse personagem qui ocê ta fixado. Se percisar lavar chão, ocê vai ter qui ser o mior. Ou então vai passar fome. Larga essa panca, meu neguinho.

Mãe Preta si dispedi dizendo aos filho: muita paz!

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A voz do silêncio

O atendimento da noite agora encerrava naquela terreiro de Umbanda.

Alguns dos pretos velhos que haviam trabalhado, desligavam-se de seus aparelhos, não sem antes equilibrá-los com energias edificantes e benfazejas.

Um dos médiuns, após, praticamente “despachar” seu protetor, apressou-se em ajoelhar-se aos pés da preta velha que ainda permanecia incorporada, para solicitar aconselhamento.
O bondoso espírito acolheu amorosamente suas lamentações como o fez com todos os outros que haviam passado por ela naquela noite.

Ouviu a tudo fumegando seu cachimbo, porém nada falou. Saravou aquele filho, agradecendo- o pela caridade que havia prestado e assim se despediu, largando seu aparelho.

O médium por sua vez, desajeitadamente se retirou sem conseguir entender o silêncio da Preta Velha. Um misto de rejeição e indignação passou a povoar seus sentimentos.

- “Então é assim! Eu fico fazendo caridade por horas a fio e quando solicito ajuda o que recebo?”
Enquanto a corrente mediúnica realizava as preces de encerramento da sessão, ele sentiu uma inexplicável sonolência que o obrigou a dirigir-se diretamente para casa, ignorando o programa prévio de sair com os amigos para mais uma noitada de lazer em bares da cidade.

Mal adormeceu, em corpo astral, através do desdobramento, percebeu estar ajoelhado sobre folhas verdes e cheirosas num ambiente simples, cujas paredes eram feitas de bambu, o teto de folhas de
coqueiro e o chão de terra batida. tochas_1

Algumas tochas iluminavam o local e havia uma cantiga no ar que ele bem conhecia. Sentindo a presença de alguém, virou-se e o viu sentado em seu tosco banco com aquele sorriso matreiro e cachimbo no canto da boca. Sua roupa, bem como seus cabelos brancos contrastavam com a pele negra. Os pés descalços e calejados. No pescoço um rosário cujas contas eram pura luz. Sim, era ele, Pai Benedito, seu protetor.
- Saravá zin fio!
- Saravá meu Pai!
- Pai Benedito chamou o filho até sua tenda para poder explicar tudo aquilo que você não conseguiu entender com a orientação da mana lá no terreiro da terra.
- Meu Pai, ela nada falou…
- E suncê se magoou, não foi?
- -É… não compreendi.. .
- Por isso Pai Benedito o trouxe até aqui e vai explicar. Os filhos da terra ainda não conseguem compreender a mensagem do silêncio devido as suas mentes aceleradas pelo imediatismo, pela
falta de concentração e pelo vício de “receitas prontas”. A mana que nada disse ao filho, agiu assim justamente para incentivar a sua busca das respostas. Queria que o filho, instigado pela falta do
aconselhamento a que vinha se acostumando, pudesse parar e pensar. Pensar em todos os conselhos que seu protetor, através de seu aparelho, havia passado para as pessoas que atendera lá no terreiro há momentos atrás.

O silêncio da preta velha, quis dizer ao filho que o primeiro e maior beneficiado da abençoada tarefa mediúnica é o próprio mediador. A sua característica de médium consciente permite que receba e transmita os nossos pensamentos e os bons fluídos dos quais se torna canal. Para que o intercâmbio “médium-espírito” aconteça, pela bondade divina , o corpo astral do mediador é previamente preparado antes de reencarnar através da “sensibilização fluido- mediúnico” de seus centros de forças para que assim se dê a afinização com seus protetores.

Durante toda a vida encarnada, é ainda alertado e amparado para que possa exercer o mandato dentro do programado. No entanto, existe um carma envolvendo tudo isso e o fato dos filhos prestarem a caridade não os isenta dos entrechoques a que estão sujeitos na matéria, que nada mais são do que ensinamentos necessários do certo e do errado.

Respeitando as escolhas feitas, esses protetores tantas vezes, mesmo e apesar de todo esforço, perdem seus pupilos para os descaminhos da vida, e então resta-lhes aguardar que o relógio do tempo os traga de volta pela mão da dor.

Pai Benedito não se entristece se o filho por vezes o dispensa ou não entende suas mensagens. Nem mesmo quando o filho desfaz as energias recebidas após o trabalho de caridade através da busca de prazeres ilusórios e momentâneos. Apenas ajoelha diante do congá, que no plano astral fica sempre iluminado pelas velas da caridade prestada nas poucas horas em que a corrente de médiuns se reúne na terra, e implora ao Pai Oxalá a sua compreensão para todos os espíritos que ainda teimam em permanecer colados às suas mazelas no plano terreno.

Por isso filho, estando aqui em frente a este espírito que tanto o ama e cuja ligação perde-se no tempo, peço que desabafe suas dores, que tire as dúvidas que angustiam seu coração.

Agora o silêncio era todo seu.
Apenas as grossas lágrimas que desciam de sua face falavam de sua pouca fé, de seu descrédito até então, pela própria mediunidade. De seus momentos de incertezas quanto a estar servindo realmente de canal para Pai Benedito, de seus medos em relação ao animismo e da confusão que fazia dele com a mistificação. Mas principalmente de sua vontade de largar tudo pelos prazeres do mundo, afinal era muito jovem ainda para levar uma vida regrada em função da mediunidade.

- Pai Benedito compreende a angústia do filho, mas pede que revise os tantos avisos que recebeu em seus sonhos, nas palestras instrutivas que ouviu lá no terreiro, nos livros que chegaram até suas mãos e nas tantas vezes que a Preta Velha o instruiu, o aconselhou. Onde estão estas informações? Para quem eram dirigidas nossas palavras nos atendimentos, senão para você que as ouvia antes de repassá-las?

Nada é proibido aos filhos no estágio da matéria, mas em tudo deverá existir o equilíbrio.
O silêncio da Preta Velha havia sido traduzido e agora ele conseguia compreender que fora o melhor, dos tantos conselhos que ouvira dela. Fechando seus olhos, a ela agradeceu mentalmente e quando os abriu, além do cheiro de incenso e da claridade que se instalara naquele ambiente, percebeu que tudo modificara.

A humilde tenda agora era um templo iluminado por vitrais coloridos que formavam filetes de luz que se entrecruzavam num quadro de beleza estonteante. No chão, ao centro, em esplendoroso piso vitrificado havia o desenho de uma mandala, que de seu centro irradiava luz dourada.

Já não estava mais diante daquele Pai Velho em humildes trajes, pois ele havia se transfigurado num ser de características orientais, de olhar penetrante.

Nada pode pronunciar, sua voz embargou. Havia que se fazer o silêncio para que só ele traduzisse a mensagem agora recebida. Naquela manhã acordou muito cedo, tendo plena lembrança de seu “sonho”. No ar, ainda o cheiro do incenso. Não fosse a exigência da vida física, ficaria o dia todo calado, saudando o silêncio da Preta Velha.

“Que nos ouça, quem tem ouvidos de ouvir”.
Saravá aos filhos da Terra!
Vovó Benta

Maria Santíssima, com Sua simples presença, emana uma Luz suave e cálida que faz com que os corações que se elevam para o amor infinito, se encham de serenidade e paz.
Como o sol anuncia a manhã e ilumina o dia, peçamos à Maria que ilumine nossos caminhos e faça com que nossos corações, batendo junto ao Seu Coração, possa entender Seu amor Maternal.

A.D.

Texto recebido por email.

Porque Caboclos e Pretos Velhos?

Introdução, comentários e pesquisa de Alexandre Cumino – Publicado no Jornal de Umbanda Sagrada – Outubro de 2008

O texto abaixo é de Lilia Ribeiro, publicado na Revista Gira da Umbanda, numero 1, em 1972. Revista editada por Atila Nunes Filho.

Lilia Ribeiro foi dirigente da TULEF (Tenda de Umbanda Luz Esperança e Caridade) e editora do jornal informativo Macaia.

A TULEF foi uma das Tendas fundadas por médiuns que vinham da linhagem direta de Zélio de Moraes e que fazia questão de seguir ao maximo a orientação do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Lilia foi quem registrou o maior numero de entrevistas com Zélio de Moraes e boa parte do material foi entregue diretamente a Mãe Maria, da Casa Branca de Oxalá. A palavra de Lilia é forte e carregada de embasamento, tanto quanto de vivência com a Umbanda de Raiz primeira.

Portanto todos os textos desta médium, sacerdotisa, autora e pesquisadora são de suma importância para a religião e não podem se perder no tempo.
São poucos os textos doutrinários de Lilia a maioria do que nos chega de sua autoria são as entrevistas e organização do pensamento e definições dadas por Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Vamos ao texto:

Uma das incógnitas que ainda perduram, na Umbanda, é a verdadeira nacaboclayara tureza dos Caboclos e Pretos-Velhos.
Várias opiniões formaram-se a respeito dessas entidades que, através de uma linguagem simples, emitem, por vezes, conceitos que revelam o pensamento erudito de um mestre.

No decorrer de vários anos de convivência com os nossos Velhos e Caboclos, observando-lhes os trabalhos, auscultando opiniões sobre os problemas da vida terrena, notamos que o grau de conhecimento, de evolução varia muito.

Encontramos Pretos Velhos aparentemente apegados aos bens materiais, fazendo questão do “tôco” e do “pito” que não cedem a ninguém, aborrecendo-se com facilidade, reagindo como simples criaturas humanas.

Outros, porém, revelam no procedimento e nas palavras, no acatamento à disciplina imposta necessariamente pela direção espiritual dos trabalhos, a luz espiritual adquirida.

Uns e outros referem-se às senzalas, à vida passada na escravidão ou nas aldeias.
Se o freqüentador assíduo dos terreiros não procurasse o guia apenas para lhe expor as dificuldades da vida terrena, buscando somente o con­selho para a solução mais fácil dos seus problemas materiais, teria oca­sião de receber ensinamentos pre­ciosos sobre a vida futura, as reen­carnações, a neces­sidade de ven­cer, com o próprio esfor­ço, a passa­gem difícil que se lhe apre­senta e que será mais um grau con­quistado na escola da vida.

Dizia José Álvares Pessoa que a Umbanda é, talvez, a única religião que se preocupa com os problemas ma­teriais do homem. Não por ser um culto mate­rializado.
Pelo contrário: percebendo co­mo o ser humano premido pelas difi­culdades que o seu próprio Carma con­duz, se afasta do criador, quando a en­fer­midade, a falta de recursos financei­ros, a desarmonia no lar se tor­nam mais poderosos que a sua crença, os dirigen­tes espirituais do nosso planeta organi­za­ram um movimento destinado a dar ao homem o conforto, o conselho, a aju­da através dos quais poderá ser, ainda uma vez, reconduzido aos caminhos da fé.

Criaram-se legiões de missionários e para que mais facilmente fossem aceitos e compreendidos pelas classes menos favorecidas, assumiram a feição ainda mais simples, apresentando-se como escravos ou nativos.

Mas terão sido realmente, todos eles, pretos ou índios?

Sabemos que a pobreza e a humanidade não afluem na escala espiritual;
a história da nossa pátria evidencia a lealdade, o caráter do índio brasileiro, o valor de muitos escravos.

Sabemos, igualmente que não existem fronteiras, no mundo astral.

Logo, não é de crer que haja um plano exclusivo para caboclos e pretos escravos.
Preferimos, portanto, adotar o conceito de muitos espiritualistas, entre os quais o acima citado J. A. Pessoa:

os guias participam desse movimento de socorro ao homem encarnado,
neste final do segundo milênio e se apresentam como Caboclos e Pretos Velhos, nem sempre tiveram a última passagem na terra como escravos ou índios; alguns, possivelmente, nunca o foram.

Assumiram essa personalidade como distintivo da missão que viriam a desempenhar.
Uns contam como viveram, há 2pretovelho 00 anos ou há pouco mais de meio século, nos engenhos ou nas aldeias indígenas. Outros abstêm-se de qualquer referência à sua passagem na vida terrena.

Pacientemente, dão atenção às queixas, ao relato dos pequenos problemas de rotina da nossa vida, aconselhando, animando, esclarecendo, conforme a necessidade de quem lhes fala.

Ensinam a mensagem do Evangelho, o perdão, o amor ao próximo, mos­tram como é necessário dar para rece­ber, perdoar para ser per­doa­do, corrigir as fa­lhas, dominar os senti­mentos de vingança, de inveja, para adquirir luz.

E através desse traba­lho humilde, incompreen­­dido, ainda, por mui­tos, vão prosseguindo na missão de recon­duzir o homem ao caminho que o levará a Deus.

Sua origem, não importa.
Se o Caboclo viveu como um cacique de uma tribo ou como iniciado de uma seita oriental, não interessa no momento.

Se o Velho foi escravo ou jovem médico, ou se foi mestre na magia, também não faz diferença.

O que vale, agora, é apenas a missão a ser cumprida, em benefício da humanidade,
para que o Brasil, futuro centro de difusão do Evangelho, esteja melhor preparado para o advento do III Milênio.

Transcrição completa do artigo publicado pela revista Gira da Umbanda, ano 1 – número 1 – 1972, Introdução, comentários e pesquisa de Alexandre Cumino
Publicado no Jornal de Umbanda Sagrada – Outubro de 2008 

ORAÇÃO AOS PRETOS VELHOS

pretoss

Carreteiro de Oxalá Bastão bendito de Zambi
Mensageiro de Obatalá
Meu pensamento se eleva ao teu espírito e peço “Agô”.
Que tuas guias sejam o farol que norteie minha vida.
Que vossa pemba trace o caminho certo para todos os meus atos,
que vossas palavras, tão cheias de compreensão e bondade,
iluminem minha mente e meu coração,
que teu cajado me ampare em meus tropeços.
Ontem, te curvastes aos senhores.
Hoje, ajoelho-me aos seus pés, pedindo que intercedas junto a Oxalá
por mim e por todos que neste momento clamam por vós.
Maleme e Paz sobre meu lar, e que a Luz Divina de Obatalá
se estenda pelo mundo, e que o grito de todos os Orixás
sejam o sinal de vitória sobre todas as demandas de minha vida.
Maleme as Almas. Maleme para todos os meus inimigos,
para que saiam do negrume da vingança e encontrem
a fonte fecunda e clara do amor e da caridade.

Assim seja.

A.D.

O Porque dos uniformes

Texto extraído do livro: O ABC do Servidor Umbandista – Pai Juruá –
no prelo

Determinado dia, numa conversa sobre religiões, em que os
interlocutores eram umbandistas e espíritas, defrontei-me com a
afirmação de um deles (kardecista) sobre a desnecessidade da
utilização de vestimentas ritualísticas e que tal prática era
irrelevante para o intercâmbio com a Espiritualidade.

Concordamos que a espiritualidade para se manifestar, necessita tão
somente da santidade das intenções, mente equilibrada, corpo são e
moral elevada, não se atendo a vestimentas. Mas, vamos nesse artigo,
explicar as razões da Umbanda em utilizar roupas brancas em sua
ritualística.

Uma das diretrizes trazidas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, por
ocasião da anunciação da Umbanda no plano físico, evento histórico
ocorrido em 15/16 de novembro de 1908, em Neves, São Gonçalo – RJ, é a
que diz respeito à IGUALDADE.

Sabemos que na atual sociedade, com valores deturpados ou invertidos,
é comum as pessoas avaliarem umas as outras, não pelo grau da
espiritualidade, caráter, boas ações ou honestidade, mas sim pelo que
se apresenta ou ostenta a nível de posses.

Dentro deste contexto é corriqueiro, embora extremamente falho,
valorizar ou conceituar os habitantes deste planeta tendo como base a
apresentação pessoal externa do indivíduo, ao invés de se atentar para
os qualificativos internos (subjetivos). Priorizam-se bens materiais
em detrimento das virtudes. E é justamente por isto que a Umbanda
adotou o vestuário uniforme (branco, é claro), para que alguns
assistentes, ainda enraizados a equivocados conceitos, não tenham como
dar vazão aos seus distorcidos juízos de valor.

Assim, quem adentra por um Templo Umbandista na esperança de cura ou
melhora de seus problemas jamais terá a oportunidade de identificar no
corpo mediúnico, todos com trajes iguais, eventuais ou supostas
diferenças intelectuais, culturais e sociais. Não terá a oportunidade
de saber que por trás daquela roupa ritualística se encontra um
engenheiro, um diplomata, um rico empresário, um camelô, ou uma
empregada doméstica.

Porque há quem vincule a eficácia de um socorro espiritual tomando por
parâmetro o próprio médium através do qual a Entidade Espiritual se
manifesta. Se o medianeiro atuasse nas sessões espírito-caritativas
com trajes civis, as pessoas que pensam da forma retro-citada
passariam a tentar avaliar o grau de intelectualidade, de situação
financeira, social, etc., pela qualidade do vestuário apresentado
pelos médiuns. Então, médiuns calçando sapatos de fino couro, camisas
e calças de marcas famosas seriam facilmente identificados e
preferencialmente procurados. Outros tantos, humildes na sua
apresentação, seriam deixados em segundo plano.

Observem em reuniões de certos segmentos religiosos que criticam a
Umbanda, o que acontece durante seus cultos. Desfiles de roupas de
grife, ternos arrojados, calçados importados, em verdadeira hemorragia
de vaidade e auto-afirmação. Estes que assim se apresentam são o
centro das atenções, admirações, bajulações e exaltações, enquanto
aqueles que não têm condições financeiras de se vestir amargam a
indiferença e o ostracismo. Em nossa religião isto não acontece (em
Templos de Umbanda sérios!), porque mesmo aquele que se apresenta em
trajes suntuosos terá que necessariamente substituí-los por um
uniforme, uniforme este igual ao que é utilizado por um biscateiro,
uma dona-de-casa ou um desempregado, durante as sessões de terreiro.

Na Umbanda, Sopro Divino que a todos refresca, o personalismo ou
destaque individual é algo que jamais deverá existir. Somos meros
veículos de manifestação da Espiritualidade Superior e, a par disto,
devemos sempre nos mostrar coletivamente, sem identificações pessoais
ou rótulos, tão somente como elos iguais de mesma força e importância,
neste campo de amor e caridade denominado Umbanda.

Os que se colocam contra o vestuário uniforme dos médiuns umbandistas
são aqueles mesmos que, não tendo conhecimento sobre a ação nefasta de
certos fluidos etéreo-astrais sobre a matéria, estando em lugares ou
com pessoas portadoras de magnetismo inferior, ao chegarem nos Centros
(kardecistas) para darem passes sem tomar banho e trocar de roupa,
estão impregnados de cargas fluídico-magnéticas densamente negativas
que, por conseguinte, interferem no campo áurico e perispiritual dos
médiuns, simplesmente acabam, através da imposição e dinamização das
mãos, passando ao assistente toda ou parte daquela energia inferior
que carrega.

Na Umbanda, o uniforme do médium ou está no vestiário do Templo, e,
portanto dentro do cinturão de defesa do mesmo, ou está em casa, sendo
lavado e passado, longe do contato direto com as forças deletéricas.

Vestimenta ritualística umbandista é sinônimo de igualdade e de
higiene astral-física.

Grupo Espírita Cabocla Jurema de Oxalá com adaptação do Pai Juruá

VESTIMENTAS NA UMBANDA

São palavras textuais de Zélio de Moraes (médium do senhor Caboclo das
Sete Encruzilhadas, iniciador da Umbanda, em 1.908):

• Capacetes, espadas, adornos, vestimentas de cores, rendas e lamês
não são aceitos nos Templos que seguem a sua orientação. O uniforme é
branco, de tecido simples.

No inicio, as vestimentas das mulheres eram pouco práticas (utilizavam
vestidos). A Umbanda atualmente utiliza-se de vestimentas práticas e
confortáveis.

Observa-se a total predominância do branco, pois essa cor é
irradiante, não absorvendo, pois as energias negativas tanto de
ambientes quanto de pessoas, bem como é uma cor que simboliza limpeza,
higiene, pureza, paz, humildade, simplicidade, além de propiciar aos
médiuns uma sensação de “leveza”. Tudo deve ser simples, com conforto
e praticidade. Lembre-se que os Guias Espirituais são humildes,
portanto, desprovidos de vaidade.

Quanto ao tipo de vestimenta, também se requer comodidade. Não
observamos nos dias atuais, no culto Umbandista, roupas específicas às
linhas de trabalho, muitas vezes excêntricas e coloridas, e sim,
roupas uniformizadas que são utilizadas tanto nas incorporações de
Orixás, Guias Espirituais ou Guardiões. Basicamente observamos o
seguinte:

Médiuns masculinos: Túnica e calça branca de algodão (por ser este
tecido natural, obtido através da flor do algodão e favorecer uma
transpiração adequada), sem bolso, e geralmente fechado com botões até
a altura do pescoço. A túnica deve ter o comprimento aproximado de um
palmo acima do joelho. A calça, por comodidade e praticidade, não
deverá ter bolsos atrás, mas sim, dispostos nas laterais, um palmo
acima dos joelhos (pode-se guardar qualquer objeto sem medo de
amarrotar).

Médiuns femininos: Os mesmo utilizados acima, exceto que nas
incorporações de Guias Espirituais tais como: Pretas Velhas, Baianas,
Boiadeiras, Ciganas, e Guardiãs pode-se utilizar saias longas e
levemente rodadas, mas, simples e brancas (quando da incorporação
dessas entidades, a médium já deverá ter a saia em mãos e colocá-las
por cima da calça, dentro do ambiente de trabalho, um pouco antes da
vinda das Entidades Espirituais, não havendo a necessidade de sair
para trocar-se).

Outra coisa importante é o uso de turbantes, simples, por parte das
mulheres. Os homens também utilizam uma cobertura para a coroa, do
tipo que os judeus ou os muçulmanos utilizam (conhecidos como quipá).
O uso dessas coberturas se faz necessária pelo fato dos médiuns não
necessitarem ir a um cabeleireiro ante de ir trabalhar no Templo
(vaidade) e também proteger a sua coroa (chacra coronal) da possível
infestação de alguns tipos de bactérias espirituais, oriundas dos
atendimentos. Agora, o mais importante é que com a cabeça coberta,
todos somos iguais perante Deus, Suas Hierarquias e seus irmãos de fé.

Não serão admitidos uniformes modelando o corpo do médium (agarrado).

De forma alguma, os médiuns masculinos incorporados por Guias
Femininos utilizam saias e outros adereços femininos.

Também observamos em muitos Templos a utilização de um pano branco no
pescoço (conhecido como “tolha de cabeça”), que serve tanto para
“bater a cabeça”, quanto a cobrir a cabeça (por respeito) nas
incorporações de determinados Orixás. Nessas toalhas geralmente tem
pontos bordados, representativos das linhagens de trabalho do médium e
da casa que trabalha. Jamais deverá usar essas toalhas para enxugar
suor, nariz ou outra coisa qualquer que não se refira a
espiritualidade. Para isso é bom ter uma toalhinha branca, presa na
calça, utilizada somente para higiene.

Em nosso Templo, utilizamos um pano branco no pescoço, de
aproximadamente 40 cm de largura, por 1,50 m de comprimento, somente
para identificar que ali esta um Guia Espiritual incorporado, para
auxiliar a identificação tanto para os médiuns quanto para a
assistência. Esse pano é de tecido natural (preferencialmente algodão)
sem nenhum ponto bordado, para evitar abusos e vaidades.

Adotamos tão somente o bordado com o símbolo do Templo, do lado
esquerdo da túnica.

Quando os médiuns forem para os trabalhos espirituais no Templo, nunca
deverão sair de casa vestidos com o uniforme para que este não sofra
infestação de espécie alguma, de larvas astrais e mesmo mentais, pelos
lugares que passarem. Também pode ocorrer dos uniformes ficarem sujos
e amarrotados, demonstrando que o médium é desleixado e sem higiene. O
uniforme deverá estar impecavelmente limpo e passado.

Os uniformes utilizados durante os trabalhos espirituais devem ser
lavados em separado da roupa comum da casa, pelo fato de muitas vezes
estarem impregnados com larvas astrais e miasmas, adquiridos durante
os atendimentos.

É de bom alvitre que os médiuns se troquem ao sair do Templo. Se não
puder, ao chegarem em casa imediatamente retire o uniforme, evitando
sentar em sofás ou mesmo em camas

Coloque o uniforme de molho em uma solução de água com sal grosso,
para no outro dia, lavá-lo normalmente, e se possível utilizar um
germicida (cloro), e na última enxaguada colocá-lo de molho em uma
solução de água com seiva de alfazema. Depois de terminada a operação,
é importante secá-los ao sol, de preferência de manhã. Aos que morarem
em apartamento, deve-se colocá-los para secar bem junto da janela.

De vez em quando, os médiuns deverão fazer uma revisão em seu
vestuário religioso, observando se não estão encardidos, descosturados
ou mesmo rotos.

Observar também a devida feitura da barra das calças, deixando na
altura correta evitando dobrá-las, pois demonstra desleixo.

Os uniformes utilizados nos Templos, jamais devem ser usados para
outro fim a não ser o religioso.

Em dias de atendimento ao público, os médiuns deverão utilizar o
uniforme completo (túnica e calça). Um Giras fechadas (desenvolvimento
ou mesmo outras atividades onde estarão somente os médiuns), poderão
ao invés da túnica, usar uma camiseta com o símbolo do Templo.

Cada vez mais, nos rituais de Umbanda, busca-se a praticidade,
abandonando-se velhas “tradições”, que ainda perpetuam adaptadas,
imitando o Candomblé, de se adotar roupas e cores específicas aos
Orixás incorporados. Bem como o de alguns Templos de Umbanda, que nas
giras específicas, como por exemplo, na Gira de Caboclos usarem a cor
verde e cocares,; nas giras de Baianos os tradicionais chapéus de
couro e cartucheiras; nas giras de Boiadeiros o gibão e esporas; nas
giras da Guardiões roupas extravagantes, pretas e vermelhas, (ou sem
roupa (sic)), etc.

Em todos os trabalhos mediúnicos na Umbanda a roupa utilizada deve ser
branca.

Em trabalhos espirituais, o médium umbandista deve abolir totalmente o
uso de enfeites e apetrechos desnecessários, que caracterizam o
pretenso regionalismo da entidade espiritual quando encarnada. Não
devemos nos esquecer, que os espíritos não têm vaidade; fora a roupa
branca e simples, todo o resto é fruto da mente e da vaidade do médium
e não do Guia Espiritual.

Outra coisa que achamos ser de muita valia, seria um “porta objetos de
uso”, que seria, ao invés de uma sacolinha que geralmente fica no
chão, uma maleta, tipo de guardar ferramentas, de plástico, com o nome
do médium na lateral. Facilita e em muito, pois nessa maleta cabem
muitas coisas que geralmente o médium utiliza em seus rituais, bem
como tudo o que o Guia Espiritual necessita. Essa maleta, geralmente
ficaria encostada na parede, dentro do Congá e quando um Guia
Espiritual necessitasse de alguma coisa, o cambono identificaria
rapidamente a maleta do médium, e pegaria o que se necessita. É
pratico limpo e de fácil manuseio.

A Umbanda caminha para a unificação, pois hoje é sabido que mais
importante que a vestimenta, que é a apresentação externa é a condição
interna, moral e fé dos filhos e dos sacerdotes.

 

Fonte:
Texto extraído do livro: O ABC do Servidor Umbandista – Pai Juruá –
no prelo

A história de João

Texto Escrito por Pedro Rangel

Coronel Azevedo, rico fazendeiro do interiorpreto-2[1] paulista, encontrava-se a ponto de enlouquecer devido ao definhamento progressivo de sua esposa, ocasionado por uma doença que os médicos não conseguiam diagnosticar e nem curar.
Estamos no ano de 1856 e podemos ver que uma das igrejas mais suntuosas de todo o interior paulista, nesta época, encontrava-se no município onde residia o coronel e que esta fora erguida única e exclusivamente com o dinheiro dele: é que o poderoso e orgulhoso coronel era um homem fervorosamente religioso. Acontece que nem o dinheiro, os melhores médicos ou os melhores religiosos conseguiam curar a esposa dele; aliás, fora esta, a bondosa sinhá Helena, que certa vez sugerira ao esposo que procurasse a ajuda de um negro da sua própria senzala e que tinha fama de curador.
Nesta ocasião, inclusive, o coronel olhou para a sinhá com um olhar incrédulo e orgulhoso quando lhe disse: “Para o seu próprio bem, nunca mais quero escutar da sua boca a mínima menção sobre esta possibilidade!!!”.
Caminhando com passos furiosos o coronel saiu marchando dos aposentos do casal batendo a porta estrondosamente. A sugestão da esposa constituía um desaforo para ele: imagine só se o “Todo-Poderoso” coronel, um religioso fervoroso que aprendera que os negros não possuíam alma, se rebaixaria a tal ponto de pedir auxilio a um negro ignorante em favor da saúde de sua esposa.
É, meus filhos, mas não há nada como o desespero para nos fazer engolir nosso orgulho e empáfia em favor daqueles que amamos!!! Digo isto por que um trimestre após esta conversa do sinhozinho Azevedo com a sinhá Helena ela definhava a olhos vistos: o corpo dela estava quase à pele e osso, a pele mais alva do que parafina e a cabeça sem a maior parte de todos os fios negros, longos e sedosos que tanto lhe caracterizavam a bela e vasta cabeleira.
Somente quando a situação já estava assim tão triste foi que o coronel veio conversar comigo nestes termos:
— Sente-se negro maldito!
Sem pensar duas vezes eu me sentei em um toco em frente dele sem lhe olhar no rosto, pois ele não admitia que os negros olhassem diretamente em seus olhos e, então, ele continuou:
— Você sabe que é um imprestável, não é:
— Sei sim, sinhozinho.
— Você sabe que me é inferior, não sabe?
— Sei sim, sinhozinho.
— E por que você me é inferior, seu negrinho?
— Isto eu não sei não, sinhozinho!
— Pois então eu lhe digo: você me é inferior porque é meu escravo e eu sou seu superior porque sou dono da sua vida.
Nêgo pode dizer uma coisa sinhozinho?
— Fale imprestável!
— Olha, é que esse nêgo realmente é escravo do sinhozinho, mas só que suncê não pode ser dono da vida de nêgo.
— Como é, seu insolente?
Assim respondeu o coronel avançando em direção a mim com a bengala em riste pronto para me acertar.
— O sinhozinho é dono do meu corpo, mas só Deus pode ser dono da minha vida!
O coronel parou estupefato e boquiaberto quando lhe falei sobre Deus e abaixou sua bengala, já eu, vendo que não poderia perder aquela oportunidade, resolvi continuar a prosa:
— Foi Deus quem me deu um espírito e a verdadeira vida é a espiritual, então como o sinhozinho não pode ser dono do meu espírito, então também não pode ser dono da minha vida.
— Cuidado com o que diz negro porque posso lhe arrancar a língua!
— Este nêgo sabe disso sinhozinho.
— E como se atreve a falar comigo nestes termos?
Nêgo pensa que o que ele disse para o sinhozinho não é atrevimento, mas necessidade.
— Necessidade?
— É sinhozinho, pois para nêgo seria um pecado deixar suncê dizer que é o dono da vida dele.
— E por que seria um pecado?
— Pelo amor e adoração que tenho a Deus.
— Um negro que crê em Deus e que pensa possuir uma alma isto até que é interessante!
— Sinhozinho este nêgo pode…
— …Cale-se negro atrevido por que eu não vim aqui para tagarelar com você, mas sim porque fiquei sabendo de sua fama de curador.
— Sim senhor!
— Diga-me, é verdade que você é curador?
— Sinhozinho nêgo só tem o dom, quem cura mesmo é Deus!
— Como ousa dizer que quem cura por ti é Deus se já fui a várias igrejas e estive com excelentes religiosos sem que nenhum deles conseguisse curar a minha Helena; você se acha mais poderoso que os padres ou julga que Deus só escuta você?
— De forma nenhuma sinhozinho!!!
— Acho bom mesmo!!!
— Sinhozinho este nêgo já esteve duas vezes na casa grande e viu que nela tem um cômodo cheio de quadros, não é verdade?
— O que a casa grande tem a ver com a pergunta que lhe fiz?
— Por caridade sinhozinho, nêgo vai responder pra suncê, mas ajude a ele por caridade. Não é verdade, sinhozinho?
— É sim negrinho metido, na minha sala de estar há várias obras de arte de grandes gênios da pintura.
— Cada quadro foi pintado de um jeito, não é sinhozinho?
— Sim, pois cada pintor tem o seu estilo, mas isto seria informação demais para sua pobre mente entender.
Nêgo concorda com suncê sinhozinho, mas nêgo pergunta: se um pintor tentasse pintar com o estilo do outro, ele conseguiria?
— Óbvio que não!!!
— E existe gênio maior que Deus?
— Não blasfeme perante o nome do Senhor!!!
— Não é blasfêmia sinhozinho!
— É bom mesmo que não seja e quanto a sua pergunta é óbvio que a resposta também é não: não existe gênio maior que Deus!!!
— Então sinhozinho e Deus, em sua infinita genialidade e sabedoria, deu vários dons a várias pessoas diferentes para que o excelso amor e genialidade Dele pudessem ser manifestados de formas diferentes, assim é que cada pintor pode pintar uma mesma paisagem de forma diferente e cada curador pode curar uma mesma pessoa de forma diferente.
O coronel sentindo-se vencido em todas as forças do seu ser pelo sentimento de paz que este nêgo simples que vos fala amorosamente irradiava para ele sentou-se, pasmem, num toco que estava posicionado a minha frente.
Este nêgo sentia que as próximas palavras que iria dizer lhe custariam à própria vida, mas inexplicavelmente toda vez que eu pensava em vacilar via a imagem de Jesus sendo açoitado até o local em que fora crucificado e justamente esta imagem de uma forma, na época, inexplicável para mim forneceu forças para que eu dissesse ao sinhozinho o que relato a seguir:
— Sinhozinho, este nêgo pode dizer uma coisa?
— Não me aborreça e fale de uma vez!
— É que já tem três meses que eu vejo cinco vultos negros acompanhando a sinhá Helena.
— Como é? Vultos?
— É sinhozinho, são vultos que o meu povo chama de eguns.
— Explique-se!!!
— Eguns, sinhozinho, são espíritos de gente que já morreu!
— Você quer ir para o tronco negrinho?
— Não sinhozinho!
— Você não sabe que quem morre vai para o céu ou para o inferno?
— Sinhozinho isto inté já ouvi falar, mas é que este nêgo gosta tanto da sinhá Helena que para ele seria mais do que um dever: seria uma honra cura-la!
— E de onde vem esta sua admiração negrinho?
— Essa admiração não é só de nêgo não sinhozinho e nem é só de todos os negros da sua senzala, mas até mesmo de inúmeros negros das senzalas de outros fazendeiros!
— Mesmo? E por quê?
— Por que a sinhá pode inté achar que nós negros não temos alma e que não somos gente, mas trata-nos como se fossemos. É por isso que esse nêgo, com as forças de Deus, faz questão de ajudar a afastar os eguns da sinhá e trazer a saúde dela de volta.
— Muito bem negrinho, você terá três meses para curar Helena por que se isso não ocorrer você morrerá antes dela, posso lhe garantir!!!
— Sinhozinho ta dando três meses pra nêgo porque foi esse o tempo de vida que os doutor de terra deram pra sinhá, não é mesmo?
O coronel ficou boquiaberto com o comentário que eu fizera a ele e, aproveitando o ensejo, eu continuei a conversa:
— Acontece que o sinhozinho não vai precisar esperar tanto porque em menos de sete semanas a sinhá, com as forças de Zambi, há de voltar a passear por esses campos como uma borboleta quando sai do casulo.
O sinhozinho Azevedo sentiu o coração bater descompassado de tanta e emoção e esperança com as palavras que este nêgo disse a ele, mas ainda assim ele olhou pra mim e falou:
— Não brinque comigo negrinho e nem com sua sinhá, cure-a ou pagará com a própria vida!!!
Sete semanas se passaram e, na força de Zambi Nosso Pai, a sinhá Helena recuperou sua saúde. Os dias foram passando um após outro e esse nêgo começou a pensar que a aflição que sentira em perder a própria vida quando tivera àquela conversa com o sinhozinho dizendo que a sinhá estava enfeitiçada deveria de ser fogo de palha.
Mas três meses depois de nêgo ter tido àquela conversa com o coronel ele veio até nêgo e disse:
— Negrinho, você disse que minha mulher estava enfeitiçada, certo?
— Sim, sinhozinho!
— E quem me garante que, querendo alforria, você não a enfeitiçou para depois desenfeitiça-la e, assim, ganhar minha confiança e liberdade?
— Mas nêgo venera sinhá Helena sinhozinho, nêgo jamais faria isto!!!
— Então negrinho, quer dizer que não foi você, certo?
— Sim sinhozinho, não foi nêgo.
— Então, negro maldito, diga-me quem foi se não quiser perder a própria vida!
— Mas nêgo não sabe sinhozinho, nêgo jura por Deus.
— Mas você é muito insolente hein negrinho? Quem você pensa que é? Quero o nome agora ou você morre!
— Mas nêgo não sabe quem foi, nêgo só sabe que foi alguém por que feitiçaria nenhuma se faz sozinha.
— Pois bem negrinho se estou entendendo bem, alguém enfeitiçou minha Helena e você não sabe quem foi, certo?
— Sim sinhozinho!
— Mas, se você quisesse, poderia mandar o feitiço de volta para quem quis matar a sua sinhá?
— Poderia sim senhor!
— Então faça!!!
— Mas nêgo não pode fazer isto!
— Por que não?
— Por que nêgo só faz o bem, não faz o mal.
— E acabar com a raça de quem quase matou a sinhá que você diz tanto adorar, não é fazer o bem?
— Não sinhozinho, é vingança!!! Nêgo aprendeu com Jesus: “Amai os vossos inimigos”
É, meus filhos, nessa hora nêgo recebeu um golpe de bengala do sinhozinho tão forte na cabeça que ficou muito tempo desacordado.
Algumas horas depois, ao acordar, nêgo descobriu que estava amarrado no tronco e que a bengalada tinha me deixado cego das vistas.
Quando chegou a noitinha do mesmo dia nêgo começou a apanhar do feitor. Era uma chibatada após outra. No inicio elas doíam muito, mas depois eu percebi que não estava sentindo mais dor e, enquanto tudo isto acontecia, eu inexplicavelmente comecei a ver o mestre Jesus apanhando em sua trajetória até a crucificação e, mesmo não tendo a pele negra naquela época, eu sabia que era um daqueles soldados que o açoitava, sim, este mesmo nêgo véio que agora apanhava no tronco, mas ao invés de sentir dor e remorso eu sentia era a minha alma livre, minha consciência tranqüila e uma inimaginável paz de espírito.
E foi assim que esse nêgo desencarnou em sua ultima encarnação na terra, na primavera do ano de 1856: nêgo viera para purificar sua consciência dos castigos que infligira ao divino mestre na trajetória do calvário Dele.
Para nêgo terminar esta prosa com todos suncês que estão lendo estas linhas, nêgo fala que hoje em dia ele não é mais escravo, mas que continua cativo. Só que, atualmente, não mais por algemas e grilhões, mas pelo amor que ele sente por todos suncês encarnados na terra.
Suncês que desculpem nêgo , mas desta “prisão” ele não quer sair nunca: é que nêgo ama estar “preso” a uma linha de trabalho da umbanda que também ajuda os seus filhos de fé a não serem mais escravos de seus vícios, más tendências e imperfeições, pois na verdade meus filhos é nisto que se constitui a real liberdade!!!!
Que Zambi Nosso Pai abençoe a todos suncês!!!!!

Mensagem de Nêgo João recebida em 14/05/2008

Fonte: http://www.pedrorangelsa.blogspot.com/

SEM LIMITES PARA SER FELIZ

por PAI JOÃO DE ARUANDA

Meu filho, por que se entregar à tristeza?
Melancolia e depressão não levam a lugar algum – a não ser à cama ou ao hospital.
Aprenda a se ocupar com coisas boas, a perceber o lado bom de tudo e veja quanto falta ainda por realizar.

Gente deprimida e triste não produz qualidade.
É preciso dar mais valor a você mesmo.
A vida pede maior qualidade.
Entenda que você é responsável por tudo o que está acontecendo com você mesmo.
Isso o assusta? Mas é isso mesmo. Você só está assim porque você permite.

Sabe o que lhe faltou, meu filho? Faltou senso de limite. Limites para você e limites para os outros. Você perdeu o controle da situação e agora lamenta. Isso não adianta. Atitudes derrotistas não resolvem, apenas aprofundam os problemas.

É preciso primeiro conscientizar-se de que ninguém é responsável pela
sua infelicidade, a não ser você mesmo.

Mas… em compensação, somente você é capaz de reverter a situação.
Ficar em casa, preso em lamentações, desejando a morte, não fará você feliz,
não trará o sol para a sua vida. Levante-se, ouse modifique a situação.

Arrume-se, vista-se com maior carinho, aprenda a se perfumar com o sorriso
e saia pelo mundo cantando e dançando para a vida.

Abra um sorriso largo em seu rosto.
Conheça e faça novos amigos, conheça pessoas diferentes. No mundo, meu filho,
há seis bilhões de pessoas. Por que se prender apenas a este círculo reduzido de gente deprimida? Saia para a vida e para viver.

Conquiste seu espaço, sua felicidade e seu mundo.
Depressão é para quem não quer fazer nada.
Quem trabalha pela própria felicidade e pela conquista da vida não encontra tempo para se lamentar.

Acordem Para a Vida!

por Pai Firmino do Congo

Na dificuldade de encarar a vida, é sempre fácil895237
responsabilizar os outros;

Na dificuldade de se relacionar com os outros, é sempre
fácil olhar os defeitos;

Na dificuldade de amar o próximo, é sempre fácil
escolher a indiferença;

Na dificuldade de competência para ser feliz, é sempre
fácil infelicitar os outros;

Na dificuldade de caráter é sempre fácil o
nivelamento alheio;

Na dificuldade de atitude é sempre fácil condenar o
carma;

Na dificuldade de buscar caminhos retos, é sempre
fácil procurar atalhos;

Na dificuldade de obedecer a ordens, é sempre fácil se
julgar injustiçado;

Na dificuldade de compreender liberdade, é sempre
fácil buscar a libertinagem;

Na dificuldade de lágrimas sinceras, é sempre fácil
o sorriso falso;

Na dificuldade de exercitar a mente, é sempre fácil
obter respostas prontas;

Invariável reconhecer que para as nossas dificuldades,
sempre temos desculpas variadas, mas, para as dificuldades dos
companheiros que nos acompanham no dia a dia sempre temos
condenações.

Por que será que exigimos tanto do outro quando não
lhe suportamos as exigências?

Alguns poderão responder: é o instinto de conservação que fala
mais alto, temos que nos defender!

Então nêgo velho pergunta: que diacho de conservação é essa
que só guarda o que não é bom? Num existe mandinga pior do que
carregar bagagem desnecessária e se suncês tão carregando
egoísmo, vaidade, orgulho e prepotência. Tão é perdendo
tempo!

Mas aí suncês vão dizer: Pai Firmino a natureza não dá
saltos! E eu vou arresponder: concordo com suncês meus fios! Ela num
dá salto, mas, cumpre as funções estabelecidas por Zambi.

Ao invés de suncês querer ser o que não são, procurem ser o
que podem ser meus fios, tenham humildade em tudo que façam e
reconheçam que só aprendendo a vencer suas dificuldades é que
suncês sairão vitoriosos.

Acordem para a vida! Pois, guia nenhum vai fazer o que cabe a suncês
fazerem.

Naruê meu Pai!

Patacori Ogum

Ogunhê!

Fonte: Pai Firmino do Congo
http://geocities.yahoo.com.br/geraldomartins1/index.html

Cafundó

 

SINOPSE:
Cafundó é inspirado em um personagem real saído das senzalas do século XIX. Um tropeiro, ex-escravo, deslumbrado com o mundo em transformação e desesperado para viver nele. Este choque leva-o ao fundo do poço. Derrotado, ele se abandona nos braços da inspiração, alucina-se, ilumina-se, é capaz de ver Deus. Uma visão em que se misturam a magia de suas raízes negras com a glória da civilização judaico-cristã. Sua missão é ajudar o próximo. Ele se crê capaz de curar, e acaba curando. O triunfo da loucura da fé. Sua morte, nos anos 40, transforma-o numa das lendas que formou a alma brasileira e, até hoje, nas lojas de produtos religiosos, encontramos sua imagem, O Preto Velho João de Camargo.

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Faz Caridade Fio!

Negro Ambrósio em 18/09/2007

Faz caridade fio, faz caridade fio!

Assim era as fala do negro Ambrósio através do pretovelho
aparelho mediúnico que lhe servia de canal para fazer proseador.

Não era a primeira que aquele consulente ouvia esse
conselho do Pai Velho, já havia se passados oito meses desde o
primeiro dia que aquele senhor tinha adentrado ao terreiro, passando a
fazer parte da assistência, sempre voltando ao negro Ambrósio para
tirar suas duvidas.

Naquele dia ele estava decidido. Iria perguntar ao Velho
porque toda vez que falava com ele escutava o mesmo conselho? Será
que como espírito não estava vendo que ele já estava fazendo
sua parte?

Esperou ansioso a sua vez. Aquela noite seria especial,
seria diferente das outras, aquele encontro marcaria uma nova etapa no
caminhar daquele senhor.

Como sempre fazia, mais por repetição do que mesmo por
convicção, se ajoelhou diante do negro Ambrósio e foi dizendo:

- Benção vô Ambrósio, hoje venho lhe pedir uma
explicação para melhor entender o que o senhor me diz.

- Oxalá te abençoe meu fio! Negro Ambrósio fica feliz
com sua presença e gosta de fazer proseador com todos os fios que
aqui vem.

- Meu vô, como o senhor mesmo sabe já faz algum tempo que
venho a essa casa e falo com o senhor. Como já lhe disse não tenho
uma situação financeira ruim, ao contrário, nunca tive problemas
dessa ordem o que sempre me facilitou uma vida com fartura e bem-estar
desde a infância.

- Certo meu fio, negro Ambrósio já tem cunhecimento de
tudo isso que suncê falou.

- É meu vô, por essa razão gostaria de lhe perguntar
porque o senhor toda vez que fala comigo me aconselha a fazer a
caridade? O senhor não já sabe que faço isso todo mês
entregando gêneros alimentícios aos que estão carentes? Além
do que, na minha empresa mantenho uma creche para os filhos dos meus
empregados para que assim possam trabalhar com mais tranqüilidade.
Por isso gostaria que me explicasse o porquê desse conselho, dentro
da minha consciência cumpro com meu compromisso.

- É verdade meu fio, tudo isso que suncê falou pra negro
veio, faz parte de seu compromisso e fio cumpre direitinho sua parte.
Porém fio esse compromisso faz parte de seu social. Suncê alimenta
o corpo material que precisa de sustentação pra ficar de pé, pois
se não for assim fio tem prejuízo, só que o fio também
precisa distribuir o pão espiritual e assim fazer a caridade.

- Não entendi meu vô seja mais claro? Que caridade
espiritual é essa?

- É a mesma que esse meu aparelhinho faz aqui no terreiro.
Suncê precisa assumir sua condição de médium.

Espantado, disse o senhor: como é que é vô Ambrósio
o senhor está me dizendo que tenho compromisso com a mediunidade na
Umbanda é isso?

- É isso sim, meu fio. Suncê tem compromisso com essa
banda.

Ante as muitas verdades que ele já tinha ouvido, nunca uma
afirmação estava tanto a lhe remoer a alma. Como seria possível?
Achava bonito a Umbanda, gostava do cheiro das ervas e do cachimbo dos
vôs, mais daí então a ser médium era demais para ele.

Mesmo de forma acanhada buscando aparentar tranqüilidade
aquele senhor disse ao vô:

- Meu vô acho que há um equívoco, pois nunca senti nada
a respeito da mediunidade.

- Num sentiu porque se prende e que não quer dizer ou suncê
acha que nego veio não vê o companheiro de Aruanda que lhe
acompanha e que hoje está dando autorização pra fazer esse
conversado? Meu fio diz que gosta do cheiro das ervas e desse terreiro
- o que é uma verdade – mas o que fio não se vê é dobrando
o corpo para prestar a caridade, deixando assim que seu Pai Preto
também lhe traga lições para seu caminhar. Então meu fio,
enquanto suncê não entender, nego veio vai continuar repetindo o
conselho: faz caridade fio, faz caridade fio! Mesmo que tenha que
arrepetir isso por muitas veis, pois água mole em pedra dura fio,
tanto bate inté que fura. Olha fio! Eu tenho um compromisso moral
com esse companheiro de Aruanda que te acompanha e te agaranto que
não será de minha parte que não será cumprido. Pensa no que
esse veio te falou e dispôs vem prosear novamente, pois o passo de
veio é miudinho e devagarzinho, só tem uma coisa fio: o tempo
corre e espero que suncê queira aproveitar enquanto tá desse lado
de cá!

Aquele senhor se levantou da frente de negro Ambrósio sem
dizer mais nenhuma palavra, seria preciso tempo para digerir tudo que
ele tinha ouvido.

Oito meses se passaram depois daquela prosa, ninguém no
terreiro tinha visto novamente aquele senhor na assistência.

Era 13 de maio, gira festiva de preto velho, os trabalhos tinham
se iniciado. Negro Ambrósio olhava para a porteira do terreiro como
se estivesse a esperar por alguém e assim cantarolava “acorda
cedo meu fio, se com velho quer caminhar, olha que a estrada é longa
e velho caminha devagar, é devagar, é devagarinho quem anda com
preto velho nunca ficou no caminho”. Acostumados com a curimba os
filhos da corrente repetiam os versos sem perceber que naquele dia a
entonação estava mais dolente. Mais um filho de Zambi venceria uma
etapa, mais um seria libertado.

E foi olhando para a porteira que negro Ambrósio viu aquele
senhor adentrar no terreiro, com os olhos rasos d’água e de joelhos
se postar assim dizendo: Vô Ambrósio se é verdade que tenho
essa tal mediunidade aqui estou para aprender a fazer caridade, nesses 8
meses minha vida perdeu a alegria, relutei muito para chegar aqui
novamente e não nego que fugi por vergonha se ainda houver tempo…

Aquele senhor nem chegou a ouvir a resposta do negro
Ambrósio. Do seu lado já se encontrava um negro que de forma doce
e amorosa assim falou: Meu fio a quanto tempo espero por esse momento,
por esse reencontro. Vamos trabaiá meu fio nas bênçãos de Zambi
e na fé de Oxalá!

Diante dos filhos daquela corrente, aquele homem branco, de
olhos claros, quase translúcidos, alto, dava passagem nesse momento a
mais um preto velho e foi curvando aquele corpo que se ouviu a voz da
entidade assim dizer: Bendito e louvado sejam o nome de nosso Pai
Oxalá! Saravá negro Ambrósio! Pai Joaquim das Almas se faz
presente nesse Gongá!

- Saravá Pai Joaquim!

E daquele dia em diante mais um filho começava a sua
caminhada. Mais um chegava a corrente da casa. Mais uma estrela passou a
brilhar nos céus de Aruanda!

Saravá Preto!!!

A.D.
Mensagem recebida por email.