Pontos

“Dentro da ritualística de Umbanda, os pontos cantados são indispensáveis. São verdadeiras preces cantadas, que expressam a fé, a mística, a magia da ritualística de Umbanda. Mas hoje em dia, infelizmente, existe muita adulteração. Antigamente – e mesmo hoje, em raros templos de Umbanda – nossos mentores os ensinavam, cantando-os durante as giras. Quando uma Entidade Espiritual (Caboclo, Pai-Velho, etc.) ensina um ponto cantado, dizemos que o mesmo é de raiz.

Hoje em dia os pontos cantados de raiz são raros. O que há é muito ponto cantado sem pé nem cabeça, identificando o nível espirítico de quem os canta. Sim, temos observado, de há muito, pontos cantados de uma pobreza franciscana no verso e na musicalidade, que acabam por fornecer subsídios aos nossos mais fortes detratores. Este equívoco de muitos Irmãos em Fé já está sendo corrigido e entendido em muitos lugares, pois os verdadeiros Umbandistas são pessoas simples, honestas e bem intencionadas , que buscam de todas as formas melhorar seus rituais para melhor atender-se ao objetivo e finalidade máxima da Umbanda, qual seja a prática da caridade, em todas as suas formas e expressões. Deixemos para trás esses pontos desconexos, barulhentos, esquisitos, jungidos às coisas do baixo mundo astral e que foram “feitos” por “veias poéticas” profanas de visionários e fanáticos…pelo dinheiro!

Os verdadeiros pontos cantados são, como já dissemos , os de raiz, dados que foram por uma Entidade Espiritual de fato e de direito. Expressam, de maneira sublime, uma mensagem, uma emoção, um sentimento, uma imagem, um alerta, etc. Como podemos observar ao ouví-los, além de ativarem o misterioso fogo renovador da fé e do puro misticismo, movimentam uma linguagem metafísica onde cada um entende, segundo seu alcance, várias mensagens. Com eles as Entidades impregnam certas energias e desimpregnam outras, dependendo do ponto cantado no momento.

Antes de citarmos e traduzirmos um ponto cantado de raiz, vejamos como devem ser os pontos e o que expressam, segundo cada uma das 7 Linhas Espirituais:
 

Os pontos devem ser entoados não apenas com a boca, mas sim, muito principalmente, pelo coração, ou seja, devem ser sentidos, interiorizados.
A “corrente espiritual” de um terreiro, ou seja, os guias, os protetores, esperam que todos entendam que os pontos cantados em verdade são o “roteiro vibratório” da gira. É o caminho vibratório por onde uma gira vai encaminhar-se. Pontos cantados adequados e harmonicamente cantados tornarão a gira tranquila, proveitosa e organizada, dando-se o contrário quando os pontos cantados forem inadequados e inabilmente entoados. Como já dissemos, os “verdadeiros” pontos despertam a fé, a harmonia, o bom ânimo, o ajuste, etc.
Jamais os pontos cantados devem ser “gritados”, entoados a plenos pulmões, ferindo a sensibilidade astral de quem a tenha e mesmo de quem não a tenha. Pontos cantados altos, gritados, ativam o ardor guerreiro, atávico, fetichista, atraindo esta classe de correntes de pensamento e espíritos.
Repetimos que os pontos cantados são verdadeiras preces, quando bem cantados, em cujas letras realmente há imagens positivas, que elevam o tônus vibracional (energético) de todos, facilitando a atuação das Entidades Espirituais em determinados médiuns e mesmo nos consulentes.
O ponto cantado de raiz (dado por uma verdadeira Entidade) não se limita a atuar em certas pessoas através de reflexo condicionado. É importante que entendamos que a música é uma combinação harmoniosa de sons. Como sabemos pela ciência oficial, todo som tem frequência peculiar, tendo cor e emitindo, atraindo ou dissipando certas energias. Além dos aspectos místicos, o ponto cantado movimenta a magia de Umbanda, algo que veremos em maior profundidade em nossa próxima obra.
Segundo o caboclo Sr. Sete Espadas, em sua 2ª obra, Umbanda – o Elo Perdido, em relação aos pontos cantados:

“Procure entoar os pontos cantados adequadamente, sentindo-os e não apenas cantando-os. Sinta-os em sua alma e verá, surpreso, como você canta bem, como você está bem. O ponto cantado é o caminho vibratório por onde “anda” a gira. É o verbo sagrado, portanto entoe-os adequadamente, harmoniosamente…”

Os pontos cantados mudam de ritmo e mesmo de freqüência de acordo com as Linhas Espirituais:

     a)  Vibração Espiritual de Oxalá – os sons são místicos, predispondo à paz e às coisas do Espírito.
     b)  Vibração Espiritual de Ogum – os sons são vibrantes.
     c)  Vibração Espiritual de Oxossi – os sons são imitações da harmonia da natureza.
     d)  Vibração Espiritual de Xangô – os sons são graves, isto é, são cantados “baixo”.
     e)  Vibração Espiritual de Yorimá – os sons são dolentes, melancólicos.
     f)  Vibração Espiritual de Yori – os sons são alegres, predispondo ao bom ânimo.
     g)  Vibração Espiritual de Yemanjá – os sons são suaves, predispondo à renovação afetiva emocional.

Como estamos observando, o ponto cantado possui uma função ímpar dentro do ritual de Umbanda, devendo ser-lhe dada a devida atenção, pois estamos movimentando forças das quais poucos conhecem a existência.

Até o presente instante de nossa descrição não tocamos no nome dos atabaques…por quê? Porque achamo-los completamente dispensáveis! Neste instante muitos já devem estar irritados com o autor, dizendo que o autor não sabe nada, que o autor não entende…onde já se viu Umbanda sem atabaques?

Bem, Irmãos que pensam assim, respeitamos seus pontos de vista, mas procurem alcançar o nosso: quem entende um pouquinho que seja de musicalidade sabe que o som do atabaque, por ser destituído da qualidade chamada altura, produz ruídos e não sons musicais (é monocórdio). Além disso, por prestar-se mais a ritmos sob o compasso binário (o mesmo usado para as marchas militares, etc.), sua percussão retumba principalmente sobre nossas vísceras, ativando assim, num ambiente mediúnico, o atavismo, o animiso, o fetichismo. Vejam, Irmãos em Fé, como nos desfiles militares, ao som dos tambores, parece que se ativa nosso ardor guerreiro. E no carnaval, a festa da carne, do embrutecimento na matéria e da completa anulação de tudo o que diga respeito a elevação espiritual ou mística, que ritmo ou instrumento predomina? Sim, como bons brasileiros todos nós apreciamos um bom “pagode”, uma “roda de samba”, etc, e ao simples bater dos instrumentos o ouvinte já começa a gingar. Mas isto é festa, é lazer, é divertimento profano e não culto religioso ou de aperfeiçoamento espiritual. Assim, Irmãos, todos nós haveremos de concordar, movidos apenas pela lógica pura e simples, que gostar de um “bom batuque” é lícito, é justo, mas daí a querer levá-lo aos nosso terreiros vai uma distância meridiana…

Muitos e muitos indivíduos, por causa do ruído dos atabaques, até hoje e de há muito estão incorporando o “Caboclo Eu Mesmo”. Sim, pois há muita manifestação anímica com os atabaques, muito fetichismo ativado. Com o som dos atabaques todos dançam, todos giram, todos gingam, todos pulam, todos gritam, mas incorporação que é bom, nada!

Muitos, agora, nesse instante, podem nos preguntar porque, então , a maioria esmagadora dos terreiros têm atabaques?

Essa pergunta não é muito difícil de responder. Em primeiro lugar, porque nossas Entidades, as “de verdade”, são muito tolerantes e aguardam o momento exato, uma brecha nos “cavalos” para abolir seu uso. Pessoalmente, conhecemos centenas – sim, centenas! – de terreiros que tocavam em seus rituais os atabaques e hoje aboliram essa sistemática, sendo suas giras positivíssimas e muito bem frequentadas, seja por brancos, negros, amarelos, pobres, ricos, etc. Estas giras não perderam sua força – pois muitos acham que se o terreiro não tiver atabaque não tem força. Ao contrário, o caboclo ou preto-velho que baixam por lá são portentosos e sumamente poderosos. Temos centenas de casos e centenas de pessoas que provam o que estamos dizendo…

Continuando, diremos que, um segundo fator é justamente o de muitas pessoas leigas, sem nenhum preparo, acharem que o terreiro que faz uso do atabaque é um terreiro forte. Diríamos…barulhento, pesado. Confundem barulho, vibratoriamente pesado, com fortaleza. Mas, que fortaleza? Quer dizer que se o terreiro tiver 100 atabques, cura todas as pessoas que o procuram, quebra todas as demandas, resolve todos os problemas? Claro que não! A força de um terreiro está em seus Mentores e seus médiuns, e não nesse ou naquele atabaque! Não parece lógico?!?

Muitas pessoas insensíveis, sem a mínima sensibilidade astral, não sentem absolutamente nada em um terreiro limpo, vibratoriamente falando, e onde não se usa o atabaque para incorporar esta ou aquela Entidade Espiritual. São esses que, quando vão em um ambiente mais denso, onde toca-se o atabaque, dizem ter sentido a força. Realmente são insensíveis às vibrações do mundo astral, afinizando-se com as vibrações mais densas ou grosseiras.

A terceira causa é devida à influência do culto de nação africana, nos denominados “candomblés”. Como dissemos, muitos “pais-de-santo” ou “mães-de-santo” do dito Candomblé resolveram fazer Umbanda, pelos motivos alhures explicados. Muitos deles tornaram-se dirigentes das ditas Cúpulas de Umbanda por esse Brasil afora, começando a ensinar a seus filiados aquilo que aprenderam no Candomblé mas dizendo ser de Umbanda, essa é a grande verdade! É por esse mesmo aspecto, por essa mesma via, que infiltraram-se na Umbanda as roupas, os atabaques, as comidas de santo e as tão famigeradas festas para todos, santos ou não!…

Como dizem os Mentores diletos da Umbanda, aguardemos…todos amadurecerão…Estamos apenas cumprindo nossa parte, ajudando esse amadurecimento naqueles que já estão preparados, pois ninguém pode amadurecer “na marra”. De forma anti-natural. Nosso alerta serve para todos, mas muito especialmente àqueles que se encontram maduros , com força espiritual para mudar e humildade suficiente para entender que tudo evolui, inclusive eles mesmos…

Em nossa futura obra, a qual será mais aprofundada, explicaremos o uso dos atabaques, mas em rituais não-mediúnicos, dentro dos aspectos das magia etéreo-física da Umbanda.

Quanto aos terreiros que querem continuar batendo seus atabaques, que o façam não em ritmo de samba, mas dentro do aceitável…Procurem evitar o toque de atabaques nas giras mediúnicas e verão, surpresos, quem de fato é médium, pois que não incorpora apenas usando o atabaque como muleta mediúnica.

Outrossim, sabemos ser completamente desaconselhado o uso dos atabaques a pessoas com problemas cárdio-vasculares e psicossomáticos tais como hipertensão arterial (pressão alta), coronariopatias (doença das coronárias, as artérias que , quando obstruídas, produzem o infarto), valvopatias (doenças das válvulas, tais como estenose mitral, insuficiência aórtica e outras), arritmias cardíacas(extrassístoles, taquicardia supra-ventricular, taquicardia ventricular e bloqueio de ramo, etc.).

Sabemos que além de ser contra-indicado às pessoas que possuem essas doenças, o próprio som do atabaque pode produzí-las, principalmente para o dito “ogã de couro”, o dito “alabe”ou tocador dos ilus ou atabaques. Se duvidam, procurem quem possa, com toda a isenção de ânimo, lhes informar sobre o que expusemos, e verão, surpresos, que…

O mesmo acontece com as palmas, pois nas mãos temos milhares de terminações nervosas que estão diretamente relacionados com nosso encéfalo e com núcleos superiores de nossa mente.

Também temos os montes planetários, que são concretizações das “Linhas de Força” que caracterizam nossa individualidade, personalidade e, até certo ponto, nosso destino. Portanto, não é aconselhável o bater de palmas nos rituais de terreiro, pois além de ativar certos centros anímicos, desequilibra, torna desarmonioso todo nosso organismo, principalmente o sistema nervoso e cárdio-vascular. Em geral, as pessoas que fazem uso do atabaque e do bater de palmas são ultra-nervosas, axcitadas psiquicamente, quando não com comprometimenots mais sérios. É claro que, por misericórdia divina, muita coisa é amenizada e há as exceções, as quais, um dia talvez, em nossa próxima obra, explicaremos…

No encerramento desta simples lição daremos um ponto cantado de raiz com sua devida explicação e um ponto cantado de cada Linha.

Explicaremos um pequeno pontinhos que nosso Pai Velho deu-nos, há mais de 10 anos.

                                Meu congá tem guiné…

                                pode pegar quem quiser!

                                Meu congá tem mironga…

                                só pega quem puder!
 
 

Quando “Pai Velho” diz “meu congá tem guiné…pode pegar quem quiser”, está se referindo às coisas que todos podem ver, às coisas externas, às coisas materiais.

Continuando, quando diz “Meu congá tem mironga…,só pega quem puder”, esta frase diz que há coisas que os olhos da carne não enxergam, mas há aqueles que enxergam o oculto, o real, o verdadeiro, o espiritual.

Simplificando, o congá mostra aquilo que todos querem ver ou ouvir, mas também mostra àqueles que têm olhos e ouvidos que outros não têm. No congá há a forma, mas também há a essência, e esta só pega quem puder.

Como dissemos que faríamos, daremos um ponto de raiz de cada Linha, que felizmente ainda podem ser ouvidos, nesses terreiros simples, humildes e que não tocam os atabaques em ritmo frenético para “baixar” essa ou aquela “entidade”.
 

PONTO DE OXALÁ

Oxalá meu Pai…

Segura minha gira…

Segura os filhos do congá…

Oxalá meu Pai…

Estrela guia do congá…

Luz do Mundo…

Em qualquer lugar…
 
 

PONTO DE OGUM

Saravá Ogum! E sua Coroa de Lei…(BIS)

Ogum…vem lá d’Aruanda

Vem ver seus filhos de Umbanda

Ogum…vem lá d’Aruanda

Ele é vencedor de demanda
 
 

PONTO DE OXOSSI

Estrela guia clareou…

Estrela guia iluminou…

Ele vem lá do Juremá…

Ele vem pra trabalhar…

Ele trabalha na mata…no Juremá

Onde canta a cobra coral e o sabiá…
 
 

PONTO DE XANGÔ

Xangô…meu Pai…

Deixa sua pedreira aí…(BIS)

Umbanda está lhe chamando

Deixa sua pedreira aí…
 
 

PONTO DE YORIMÁ

Cambinda…é congo….

É congo aruê…

Cambinda…é congo…

É congo aruá…

Pisa na minha angola

Mas pisa devagar…

Eu tenho ordens e direitos

Das Santas Almas de Oxalá…
 
 

PONTO DE YORI

Cosme e Damião…

Onde está Doum?

Doum está colhendo rosas…

Na roseira de Oxum…
 
 

PONTO DE YEMANJÁ

Yemanjá…yê…bá

Baba…yê…gô (BIS)

Baba…yê…gô-o-o

Baba…yê…gô
 

Irmão de Fé e Leitor Amigo, chegamos ao fim de mais uma lição, que espero possa ter sido assimilada por todos. Sabemos que o que escrevemos nessa lição vai em sentido oposto a uma certa maioria. Nossa função não é polemizar, criticar sem fundamento ou de forma pejorativa. Estivemos apoiados na lógica e na razão mas, de qualquer forma, entregamos ao leitor, o qual deverá aceitá-la ou refutá-la, a nossa opinião. Ao Leitor, ao qual temos profundo respeito, caberá a decisão…

Que Oxalá abençoe a todos, Umbandistas ou não!”
Yamunisiddha Arhapiagha in Lições Básicas de Umbanda 3a Edição (Editora Ícone – 1997)

fonte: http://www.umbanda.org/pontos.html

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